Por que a Festa do Peão de Barretos faz milhares de pessoas viverem um estilo por 11 dias
18/08/2026
(Foto: Reprodução) O que a Festa do Peão de Barretos tem que os outros rodeios não têm?
Durante 11 dias por ano, milhares de brasileiros incorporam um jeito de viver que, para muitos, existe apenas em agosto. Chapéu, bota, fivela e camisa xadrez saem dos guarda-roupas e tomam conta do Parque do Peão, em Barretos (SP), em um fenômeno que vai além dos shows e das provas de rodeio.
Cavaleiros e amazonas circulam a cavalo, peões encaram as provas nas arenas e a torcida vibra nas arquibancadas. A comida das comitivas é preparada no fogo de chão, a música sertaneja — da raiz ao agronejo — ecoa pelo parque, grupos dançam catira e a viola “chora”.
A transformação do público ajuda a explicar como a Festa do Peão de Barretos, ao longo de sete décadas, deixou de ser apenas um rodeio e se consolidou como um dos maiores eventos de entretenimento do país, além de uma referência nacional em turismo e negócios.
"Tem gente que só usa a bota, o chapéu e a fivela durante o mês de agosto para poder chegar aqui no parque e estar a caráter. Esse sentimento que Barretos traz às pessoas é único", afirma o diretor cultural da festa, Pedro Muzetti.
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Fã tira chapéu para show de Bruno & Marrone na Festa do Peão de Barretos 2025
Érico Andrade/g1
Para o presidente de Os Independentes, Jeronimo Luiz Muzetti, a magia está justamente na capacidade que o evento tem de fazer com que as pessoas se sintam parte daquele universo.
"Aqui você vai encontrar aquela pessoa que nunca usou chapéu, nunca usou bota e vai fazer isso pela primeira vez. Ela vai se sentir em casa, vai viver o sertanejo durante 11 dias. As pessoas se transformam", afirma Muzetti, que está na 13ª gestão da associação que organiza o Barretão.
Uma festa nacional
O tamanho da festa pode ser medido em números — mas não apenas neles. A quantidade de visitantes, o dinheiro movimentado e a disposição do público em recomendar o evento ajudam a dimensionar uma marca que ultrapassou as fronteiras de Barretos.
Em 2025, a festa completou 70 anos e levou 990 mil pessoas ao Parque do Peão. Segundo dados da Secretaria de Turismo e Viagens do Estado de São Paulo, em parceria com o Centro de Inteligência da Economia do Turismo (CIET) e a Leal Consultores e Associados, o evento gerou R$ 600 milhões em movimentação financeira direta.
Público assiste final do Rodeio Internacional na Festa do Peão de Barretos 2025
Ricardo Nasi/g1
O evento, ainda segundo o levantamento, recebeu nota média de 9,4 de avaliação do público e alcançou 91 pontos no Net Promoter Score (NPS), indicador usado para medir a disposição dos participantes em recomendar a experiência.
Os itens mais bem avaliados na edição dos 70 anos foram a programação cultural e os shows (97,4%), as competições (96,5%), a segurança (94,4%), a limpeza (94%) e a sinalização (94,8%).
Os primeiros sinais de 2026 indicam que a força do evento permanece. Jeronimo diz que a edição deste ano registrou venda de ingressos para 2,7 mil municípios brasileiros, abrangendo todos os estados do país.
"Mostra que a festa não é só da nossa região, não é só do estado de São Paulo. É uma festa que recebe turistas do Brasil inteiro."
Jeronimo Luiz Muzetti, presidente da associação Os Independentes, organizadora da Festa do Peão de Barretos
Érico Andrade/g1
A presença de visitantes de diferentes partes do país também se reflete nos resultados da festa. Em um cenário em que diversos eventos enfrentam dificuldades financeiras e até cancelamentos, Barretos vive um movimento oposto.
"Acredito que vamos chegar a cerca de 40% de faturamento acima do ano passado. Em duas semanas de vendas, já tínhamos alcançado 80% do faturamento que tivemos em toda a edição anterior", revela o presidente.
O desempenho surpreendeu até os organizadores e serviu como combustível para novos investimentos.
"Foi algo encantador e deu força para a gente falar: vamos investir, porque o turista vai vir."
Inovar sem perder a essência
Se a tradição ajuda a explicar a longevidade da festa, a capacidade de renovação ajuda a entender por que ela continua crescendo depois de mais de 70 anos.
Neste ano, a organização investiu cerca de R$ 30 milhões em melhorias estruturais e obras no Parque do Peão. Mais do que ampliar a estrutura, as mudanças buscam transformar a experiência de quem circula pelo recinto.
Montaria válida pela noite de sábado (30) do Rodeio Internacional na Festa do Peão de Barretos 2025
Érico Andrade/g1
Foram mais de 25 intervenções, incluindo novas portarias, ampliação da área VIP, elevadores, módulos de banheiros, expansão de camarins na Casa dos Artistas, modernização da iluminação e melhorias na área de camping. Só a instalação de um novo painel de LED suspenso no centro da arena custou cerca de R$ 3 milhões.
"Quem veio no ano passado vai perceber que mudou. E quem vier pela primeira vez vai se encantar", diz Jeronimo.
A cada edição, a organização tenta transformar o Parque do Peão sem descaracterizá-lo.
"Não podemos dizer que estamos tranquilos com o que fazemos. Temos que ousar todos os dias e entregar algo novo para o turista."
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Quem vai tocar no Barretão 2026?: confira a programação
Pedro acompanha de perto esse processo. Ele cita mudanças realizadas nos últimos anos na cenografia e na experiência visual do evento.
"Hoje existe um projeto integrado para toda a festa. O conceito da campanha é levado para os palcos, para os portais e para diversos espaços do parque. Isso trouxe muito mais vida para o evento."
O crescimento da programação também acompanha essa filosofia. Se no passado a festa reunia cerca de 100 apresentações, hoje ultrapassa 150 shows distribuídos em cinco palcos, com planos para ampliar ainda mais a estrutura.
"A gente vai inovando, vai tentando trazer coisas novas. A ideia é continuar criando experiências para públicos diferentes sem perder a essência sertaneja da festa."
Barretos olha para o mundo
Para continuar mudando sem perder a identidade, a organização também olha para fora. Grandes festivais e rodeios internacionais se tornaram uma espécie de laboratório para quem pensa as próximas edições de Barretos.
Jeronimo cita visitas ao rodeio de Calgary, no Canadá, e ao Tomorrowland, na Bélgica.
Cabanas no camping são novidade na Festa do Peão de Barretos 2026 para quem quer conforto, privacidade e exclusividade
Alisson Demetrio
"Você vê uma fanfarra tocando no meio do público, um artista de rua se apresentando, detalhes de limpeza, cenografia, iluminação. Tudo isso inspira. Muitas coisas que vimos lá nós trouxemos para Barretos."
Em 2026, esse olhar aparece em novidades como as cabanas instaladas no camping e a iluminação cenográfica de telhados e monumentos do recinto.
"Todos os tetos do Parque do Peão estão iluminados. Quando a pessoa vê as imagens aéreas na televisão, pensa: no ano que vem quero estar lá."
Pedro confirma a influência desse olhar.
"Meu pai tem um olhar muito inovador. As cabanas vieram de referências vistas em outros eventos. A iluminação dos tetos era uma ideia que ele defendia havia anos. Isso ajuda muito."
Queima do alho servida generosamente neste domingo (24) na Festa do Peão de Barretos 2025
Érico Andrade/g1
Tradição que resiste ao tempo
Mas há coisas que não mudam. Mesmo com novos palcos, tecnologia, estruturas e experiências, a Festa do Peão mantém elementos que remetem às suas origens.
A Festa do Peão nasceu há sete décadas inspirada pelas comitivas que cruzavam o Centro-Oeste do país levando boiadas por estradas de terra até os frigoríficos de Barretos.
A Queima do Alho, os carros de boi, a catira, a música sertaneja raiz e as manifestações culturais regionais continuam ocupando espaço no Parque do Peão.
"Temos que trazer inovação sem abrir mão daquilo que nos trouxe até aqui."
Ana Castela carrega bandeira do Brasil na abertura do rodeio em Barretos
Ricardo Nasi/g1
O evento onde as marcas querem estar
A força do público, a visibilidade nacional e a capacidade de gerar engajamento também transformaram Barretos em um ambiente cobiçado por grandes empresas.
O grupo de patrocinadores e apoiadores reúne empresas de diferentes setores, de bebidas e alimentos a montadoras e fabricantes de produtos de consumo.
A presença das marcas, porém, não se limita aos 11 dias do evento. Produtos temáticos, coleções especiais e ações promocionais fazem com que a associação com Barretos continue circulando antes e depois da festa.
Segundo Jeronimo, algumas marcas estão presentes no evento há mais de quatro décadas.
"Essas empresas nos cobram modernidade o tempo todo. Elas aceleram a associação, fazem a gente buscar inovação continuamente."
Arena à espera de Chitãozinho & Xororó na Festa do Peão de Barretos 2025
Ricardo Nasi/g1
Para Jeronimo, a permanência de patrocinadores por décadas mostra a força dessa relação.
"Todos os parceiros que vêm aqui se encantam com a entrega. Por isso temos empresas há mais de 40 anos dentro de Barretos."
Sete décadas depois, a Festa do Peão mudou de tamanho, incorporou tecnologia, ganhou novos palcos e passou a atrair visitantes de todo o país. Mas continua produzindo o mesmo efeito: por 11 dias, quem chega ao Parque do Peão não apenas assiste à festa — sente que faz parte dela.
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